É, aqui estou eu, mais uma vez só, no meu apartamento tão bagunçado quanto minha cabeça. Eu sempre tive mania de buscar respostas para tudo, nunca foi apenas curiosidade, é como uma necessidade básica que tenho, entender o que se passa comigo e com o mundo. Não me custou muito para perceber que tudo é bem mais complexo do que imaginava, especialmente no que se refere ao abstrato, ao interpessoal, mas da mesma forma que busco respostas eu também tenho a mania idiota de idealizar tudo, de projetor no outro minhas expectativas, de querer fazer com que as coisas aconteçam do meu jeito e no meu tempo... mera ilusão, grande desilusão.
Com você não foi diferente, mergulhei de cabeça, ignorei a lógica do tempo e por vezes fui exageradamente passional e irracional. Mas é que foi tudo tão bonito, tão intenso... Foram tantas coincidências, “desencontrinhos”, chegou a ser algo cômico desde o princípio. E eu acreditei que nada foi vão, que eu estava no lugar certo, na hora certa, apontando pra pessoa certa... E realmente não dá, não dá pra acreditar que foi só isso, que acabou, que tudo mudou tão rápido, foi menos de uma estação. Eu definitivamente estava acreditando que ia ser diferente, que eu ia ser vista de um ângulo que poucos enxergam e em muito pouco tempo eu me senti muito segura. Mas que segurança seria essa? Quem pode ter ela?
O fato é que eu dei a cara à tapa, coloquei a mão no fogo, mergulhei de cabeça e todos esses clichês que definem uma neurótica histérica metendo os pés pelas mãos e agindo por impulso, sem pensar nas consequências, pois só consegue aprender apanhando, eu. E bastou uma mudança de rotina, um olhar diferente, um movimento estanho, uma conversa com menos entusiasmo que eu, que presto atenção em tudo, comecei a perceber que tudo estava caminhando de uma forma que não foi a que idealizei. E bastou isso para minha mente começar a cogitar mil coisas, e eu tentar de mil maneiras diferentes retomar o controle da situação. Mas que controle? Não é mesmo?
Não custou muito pra que eu me pegasse tentando ser perfeita, tentando demonstrar que poderia ser exatamente o que você esperava que eu fosse. Eu me vi disposta a tudo, querendo te agradar da maneira que fosse necessária. Abria mão de uma programação que gostaria de fazer só pra tá “disponível” caso a remota possibilidade de um convite surgisse, pensava no que podia fazer para te ajudar em qualquer situação complicada que aparecesse, queria adivinhar do que você gosta, queria ser a pessoa que você sempre sonhou... Queria te oferecer o que faltava emocionalmente, sarar as feridas que poderiam ter deixado em você, sem nem lembrar das tantas que trazia comigo.
Nada que fiz foi suficiente e eu me vi desarmada, fracassada em minha missão e trouxe para mim toda culpa, por mais que vivesse cobrando tanto de você. É, tinha que existir uma culpa para que eu me sentisse justificada. E o que vinha em minha mente era: Eu não sou/fui o suficiente, fiz pouco, foi pouco, errei, falhei, a culpa é minha! Um exagero. E eu continuava tentando reparar minhas falhas, tentando compreender até seus defeitos sempre como algo natural e comum, com o qual eu deveria aprender a lidar e aceitar, passivamente, independente de quais fossem e do mal que pudessem me causar, ou não. Acho que foi por ai e aos poucos que fui me perdendo e me entendendo cada vez menos, pelo fato de não saber quem eu estava sendo e querer tanto ser a pessoa que pela qual você se apaixonaria cada vez mais.
Nesse caminho não sei quem se perdeu, quem perdeu o outro ou se houve perda, só sei que o que eu mais queria era ser encontrada mais uma vez e vista mais uma vez pelos olhos que tentavam desvendar minhas expressões e reparavam no meu sorriso, exatamente quando eu estava sendo completamente eu.